
Idealizado pelo sobrinho da escritora, está em cartaz, no Netflix, o documentário sobre a vida e obra da premiada escritora americana, Joan Didion: The Center Will Not Hold. Dona de uma escrita íntima e genuína, o filme é uma aula para nós, acerca do funcionamento da Inteligência Emocional. Pode-se dizer que, de certa maneira, ela foi uma das precursoras dos conceitos que permeiam nossos estudos atuais sobre o assunto.
A entrevista com a autora, de 83 anos, foi feita em apenas um dia, atrelada a filmes antigos, fotos de época e músicas que foram hino de gerações. São cinco décadas de textos, como ensaios reunidos nos livros: Slouching towards Bethlehem (1968) e The white album (1979) – que a projetaram na cena da crônica estadunidense –, romances, como Play it as it lays (1972) e A book of common prayer (1979), e críticas.
Contudo, a vida dessa autora é uma grande lição de invulnerabilidade, força e capacidade de lidar com os mais dolorosos sentimentos humanos.
Sua família desbravou a última fronteira americana, na Califórnia, para escolher como morada. Não aceitaram os atalhos, não sucumbiram às promessas de outras partes do país. Ela nasceu, assim, em Sacramento, no ano de 1934.
Logo no início do documentário, ela questiona o sobrinho: “Você não acha que as pessoas são formadas pelas paisagens nas quais cresceram? Elas formaram tudo o que penso, o que faço, o que sou.”
A mãe foi a grande incentivadora de Joan nas leituras. Apresentou a revista Vogue, ícone do imaginário feminino da época. À altura, havia um concurso para estudantes finalistas da faculdade: o melhor texto teria uma vaga na empresa, em Paris ou Nova Iorque. Joan se inscreveu e ganhou, mudando-se para o outro lado do país.
Com vinte anos, Joan vai trabalhar em uma das empresas mais reconhecidas da época, nos anos 1950. Os editores seniores eram duros, e muito pouco se ouvia falar em liderança focalizada em habilidades emocionais.
No entanto, quando um redator não entregou a matéria intitulada: “Amor-próprio, sua origem, seu poder”, a protagonista viu-se obrigada a redigir sobre aquele tema, inovador para revistas femininas.
Uma vez mais, Joan precisou organizar toda a sua resiliência, frente à chefia elegante da época, e assinar seu primeiro artigo:
“Pessoas com amor-próprio demonstram certa dureza, um tipo de coragem moral. Elas mostram o que já foi chamado de caráter, uma qualidade que, embora aprovada como ideia, às vezes perde terreno para virtudes mais facilmente negociáveis. A vontade de aceitar a responsabilidade pela própria vida é a fonte de onde nasce o amor-próprio. Por mais que a adiemos, eventualmente acabamos por deitar sozinhos em uma cama notoriamente desconfortável, cama que nós mesmos faremos.”
O tom pessoal daquele texto foi uma revolução para a época, e inaugurava o estilo da autora para sempre. Em paralelo, o psicólogo estadunidense Albert Ellis, começou a explorar o que se tornaria conhecido como “terapia racional emotiva comportamental”, um processo para ensinar as pessoas a examinarem suas emoções através de uma lógica. Embora não tenham se conhecido, havia uma sincronicidade entre os ensinamentos da psicologia da década de 1950 e a necessidade de se colocar as emoções em palavras.
Outra fonte de inesgotável material para Didion foi a depressão de seu pai, um dos temas do primeiro romance. Não havia ainda estudos sobre a doença, e os sintomas se confundiam com a tristeza.
A figura magistral de sua obra
Ela se casa com John Gregory Dunne, também escritor. Ela diz que não se poderia casar com alguém que não fosse escritor, pela falta de paciência com ela. Os dois foram muito além de amantes: editavam todos os textos um do outro.
Depois de algum tempo em Nova Iorque, os dois se mudam para a California. A descrição de sua experiência com as ondas do mar confunde-se com as descrições de seus livros. O autobiográfico e o ficcional se libertam dos limites, em palavras.
Ela talvez tenha sido a grande testemunha dos movimentos hippies, na década de 1960. Entrevistou Jim Morrison, Janis Joplin e viu, com seus próprios olhos, uma criança de cinco anos inserir quantidades catastróficas de LSD. Os textos marcam uma capacidade inacreditável de distanciamento e fidedignidade à realidade. É uma das maiores escritoras de seu tempo, literalmente.
“Você vive por momentos como esse, se estiver escrevendo sobre isso. Sendo bom ou ruim. Eu resolvi falar abertamente sobre as experiências de vida.”
Aqui, podemos perceber componentes-chave de nossa ferramenta destinada à mensuração da Inteligência Emocional, o EQ-i 2.0®. Mas antes vamos relembrar os conceitos das duas primeiras dimensões:
Autopercepção: o nosso eu interior. Persistência na busca por objetivos pessoais.
- Autoestima: respeitar a si. Saber suas limitações e fortalezas.
BAIXA: pouca motivação para explorar os potenciais.
ALTA: respeito e confiança em seus talentos pessoais. - Autorrealização: evolução contínua. Busca por plenitude.
BAIXA: insegurança sobre os rumos a seguir na vida.
ALTA: Vê sentido em suas atividades. Espiritualidade. - Consciência emocional: reconhecer o nome das emoções que o cercam.
BAIXA: não ser capaz de identificar o que está acontecendo consigo.
ALTA: interpretação correta do que se passa consigo. Amplo vocabulário emocional.
Autoexpressão: é uma extensão da autopercepção. Como nos mostramos ao mundo e às outras pessoas.
- Expressão emocional: verbal ou não verbal, ser capaz de dizer aos demais o que está sentindo.
BAIXA: pessoas enigmáticas. Poker face.
ALTA: claramente enfatiza suas emoções pela face ou ao verbalizar. - Assertividade: comunicar valores e argumentar sem ferir os outros. Comunicação precisa e não violenta.
BAIXA: guardar suas impressões para si e não se sentir ouvido.
ALTA: defesa de suas ideias sem ofensas. Ser direto quando necessário. - Independência: Autonomia. Estar livre da dependência emocional das pessoas à sua volta.
BAIXA: deixa os outros tomarem decisões que o afetam.
ALTA: dirige-se a si mesmo.
Fica claríssimo, ao assistir ao documentário, a destreza e maestria desta mulher, em relação às dimensões explicitadas acima. Uma verdadeira aula para nós.
As relações interpessoais da escritora são um bocado controversas. Ela foi capaz de mostrar empatia por Linda Kasabian, a testemunha ocular nos assassinatos de Charles Manson.
Ela retrata também a necessidade do marido para estabelecer relações interpessoais ricas e plenas de trocas. São papéis claros e evidentes: o marido, a filha Quintana Roo, os amigos e entrevistados na vida de Joan.
Assim, é possível enfatizar a relação com a terceira dimensão do EQ-i 2.0®:
Relações interpessoais: a necessidade de ter relacionamentos baseados em confiança e compaixão.
- Relações interpessoais: relacionamentos mutuamente satisfatórios.
BAIXA: não estar confortável com a intimidade.
ALTA: criação de alianças que trazem benefícios mútuos. - Empatia: reconhecer e apreciar como os outros se sentem.
BAIXA: dificuldade de compreender os sentimentos alheios. Surpreender-se com a reação das pessoas.
ALTA: antecipar os sinais que os outros trazem. Sensibilizar-se com aquilo que é vivido por outrem. - Responsabilidade social: ter consciência e preocupação com a sociedade.
BAIXA: pessoas mais individualistas. Dificuldade em lidar com equipes.
ALTA: Cooperação. Sentimento de pertencer a um determinado grupo.
Quase na metade do filme, Didion e Dunne relatam o desejo de salvar o relacionamento, utilizando novamente a escrita como condutora da elaboração e da saúde emocional. Ela diz que os tempos sombrios no casamento renderam ótimos livros. Usar o material da vida a favor da própria evolução.
Em outra passagem, ao falar sobre o crescimento da filha e o medo do “ninho vazio”, Joan coloca outro conceito deveras interessante: para ela, quando se fantasia, ao escrever, nós somos capazes de espantar os fantasmas daquilo que não queremos vivenciar na realidade.
Todavia, o final é ainda mais arrebatador. Em julho de 2003, Quintana casa-se. Ela conta como esperava que o casamento fosse um presságio da felicidade, da plenitude da família. Mas, no Natal deste mesmo ano, a filha contrai uma doença, e John Dunne tem um ataque cardíaco fulminante, na noite do dia 24.
Joan tem de lidar com a morte repentina de seu companheiro por 40 anos e a internação de sua filha. Nesse interim, quando Quintana finalmente sai do hospital, leva um tombo e fica em coma por dois anos. É ai que a protagonista mostra todo o seu poder de superação: transformar o espanto, a dor, a tristeza em criação.
Em paralelo com a dimensão do EQ-i 2.0®, há a nitidez dessas habilidades emocionais:
Tomada de decisão: a utilização de informações emocionais no dia a dia do indivíduo. Impacto das emoções.
- Solução de problemas: capacidade de tomar decisões, quando emoções estão envolvidas.
BAIXA: Ansiedade, instinto, sobrecarga ao tomar decisões.
ALTA: pesa os prós e contras. Abordagem sistemática. - Teste de realidade: enxergar as coisas como elas realmente são.
BAIXA: pouco atento aos fatos. Influenciável.
ALTA: Objetivo e isento. - Controle dos impulsos: resistência aos impulsos emocionais. Não se precipitar.
BAIXA: Explosões emocionais. Imprevisibilidade.
ALTA: Tolerância à frustração. Paciência.
“A vida muda num instante. Você se senta para jantar, e a vida que você conhecia acaba de repente”. Foi assim que o livro O ano do pensamento mágico, publicado em 2005, ganhou o National Book Award e ficou famoso em todo o mundo. Nele, ela retrata o luto do marido. Nas palavras da própria autora, o mais difícil foi escrever o ponto final: “O mais difícil foi terminar o livro, porque, enquanto escrevia, estava em contato com ele.”.
A filha deles, Quintana Roo, neste mesmo ano, depois de um coma de dois anos, acaba por morrer também. A heroína Joan Didion recorre à literatura para reescrever sua trágica história de vida.
De repente, todos aqueles votos oferecidos aos noivos, em julho de 2003, se transformaram em passado. Todas as pessoas que importavam em sua vida estavam estampadas em fotografias na escrivaninha. Como restar depois disso tudo? Como é plausível encontrar forças para permanecer nesse Universo?
Apenas por causa das palavras. E, assim, a dor pode ser novamente indagada em papel e muita inteligência emocional. Nasceu Noites Azuis, última obra de Joan, sobre a mulher que sobrevive, sem autopiedade, à inexorável luta pelos dias.
Nas palavras de Elaine Brum: “O que fazer quando você é a que resta? Se você é uma escritora, escreve. Agarra-se às palavras na tentativa de compreender o impossível, agarra-se para não afundar. Agarra-se porque é preciso enfrentar as lembranças, sempre fragmentadas, e com elas construir uma memória que faça algum sentido na paisagem devastada que agora é você.”.
Na tradução magistral de nossa ferramenta EQ-i 2.0®, Joan Didion consegue driblar o estresse, para florir palavras:
Gestão do estresse: como uma pessoa lida com mudanças. Manter-se esperançoso frente aos contratempos.
- Flexibilidade: adaptar as emoções frente ao desconhecido.
BAIXA: Rigidez. Ficar preso a padrões que sustentam o status quo.
ALTA: abertura a novas visões e mudanças de comportamento. - Tolerância ao estresse: administrar situações estressantes de maneira positiva.
BAIXA: ansiedade. Falta de recursos emocionais.
ALTA: manter a calma e o controle sob pressão. - Otimismo: manter-se esperançoso e resiliente.
BAIXA: incerteza frequente acerca do futuro.
ALTA: enxergar possibilidades. Adotar atitudes positivas frente à adversidade.
Joan Didion: the center will not hold é, além de uma metáfora perfeita para nós, estudiosos da mente humana, um oásis de humanidade, de esperança, de sagacidade pela vida. Um filme que retrata, de maneira inigualável, a força que temos ao estarmos dispostos a lidar com as emoções. E, como diz a autora, confrontarmos as dores, quando sabemos onde elas estão.
Referências:
- https://www.netflix.com/watch/80117454?trackId=251128852&tctx=4%2C0%2Cbe8ada0d-7dd2-4832-99c9-edc70a8b7572-18387969
- http://revistaepoca.globo.com/Mente-aberta/noticia/2012/08/mulher-que-restou.html
- Manual do EQ-i 2.0®

