
Não são poucas as vezes, ao longo de nossa trajetória profissional, que nos questionamos sobre a razão de fazermos o que fazemos. Dormimos, acordamos, enfrentamos o caos da cidade e outros tantos obstáculos até chegarmos à empresa. Lá encontramos diversos outros desafios: problemas com prazos, processos, líderes ruins, dificuldades de relacionamento, escassez de recursos, altos níveis de estresse. E tudo isso para quê? Por quê?
Se extrapolarmos esse questionamento para as empresas como instituições vivas e inseridas nos desafios da sociedade contemporânea, será que elas conseguem responder o porquê de sua existência?
Perdi a conta das vezes em que ouvi executivos destacados defendendo a geração de riqueza para os acionistas como sendo esse motivo basal. Ora, do ponto de vista burocrático, meramente contratual, isso até pode fazer algum sentido, mas não há sustentabilidade em médio e longo prazos.
A falta de uma conexão emocional com as pessoas fatalmente acaba condenando esse tipo de visão empresarial ao insucesso.
O International Labor Organization atualmente conduz um estudo que busca definir as características de um trabalho digno. Há diversos pontos a serem observados (alguns deles já tocados aqui neste espaço em textos anteriores, como ética, respeito pelo ser humano etc.), mas a questão do propósito, do porquê, é central. Nesse sentido, dá para dizer que impedir o ser humano de ser contributivo é um crime.
Os consumidores adoram comprar o “por quê” você faz e não o “o quê”. Via de regra, como espécie, somos leais a princípios e propósitos.
Para não ficar apenas no campo das ideias, posso citar diversas empresas que estão obtendo resultados excelentes ao oferecer ao mercado os seus porquês, os seus propósitos. Apple, Uber, Google, Easy Taxi, AirBNB. É fascinante ver tais empresas descortinarem essa nova era empresarial em que as pessoas são colocadas em primeiro plano.
“Os novos tempos exigem uma nova classe de líderes, um modelo mais moderno de gestão de RH, para conectar as pessoas ao ‘por quê’ da organização e às suas próprias crenças.”
Entre tais exemplos, tenho o meu preferido: a Fazenda da Toca, um empreendimento localizado no interior do estado de São Paulo que tem uma visão completamente diferenciada do que seja sucesso no agronegócio. Fazendo uso da inteligência da natureza, respeitando os seus ciclos biológicos e nutrindo-se de sua força, a Fazenda da Toca oferece excelentes produtos orgânicos e tem obtido resultados igualmente excelentes.
Certamente, o “por quê” da Fazenda da Toca tem muito a ver com essa emergência das novas organizações, novos líderes empresariais, com consciência sobre a importância da sustentabilidade em todas as suas dimensões. Os profissionais que lá estão acreditam no que a liderança acredita e se dedicam de corpo e alma àquele projeto.
Estamos frente a uma enorme oportunidade de romper com o modelo vigente, que tem deixado as pessoas mais e mais doentes. Os novos tempos exigem uma nova classe de líderes, um modelo mais moderno de gestão de RH, para conectar as pessoas ao “por quê” da organização e às suas próprias crenças.
Tal transformação só acontecerá se essa nova liderança tiver a coragem necessária para falar de ética, de uma nova atitude profissional, de espiritualidade nas empresas e de praticar o tripé da sustentabilidade, formulado pelo sociólogo e consultor britânico John Elkington, o qual considera que, para ser sustentável, uma organização necessita ser financeiramente viável, socialmente justa e ambientalmente responsável.
É um desafio árduo, mas o cenário nunca foi tão propício. Quem se habilita?
AMÉRICO FIGUEIREDO
COO Fellipelli
