
A crise financeira internacional que os mercados mundiais estão vivenciando já conseguiu ultrapassar a blindagem brasileira e mostra seus primeiros estágios de contaminação no país. Porém, mais abaladas que a própria economia estão as relações de trabalho dentro das empresas. A atual cultura do individualismo, que rege as estruturas profissionais, vem resultando em uma crise de confiança sem precedentes nas companhias.
O estouro da bolha do subprime trouxe muitas inseguranças ao ambiente corporativo, principalmente em organizações diretamente afetadas pela crise, como as do segmento financeiro, automotivo e de turismo. Com medo do desemprego, funcionários vão ao trabalho cheios de incertezas, fato que atrapalha, e muito, a produtividade diária.
Se por um lado a crise atua de forma bastante negativa sobre as economias globais e gera um clima pesado no trabalho, suas conseqüências podem acarretar em resultados positivos para todos, empresas e suas equipes, principalmente quanto à reflexão de suas atuações e papéis no mercado, gerando uma reviravolta importante.
O esquema de trabalho adotado pelas companhias nas últimas décadas vem tornando suas existências cada vez mais efêmeras. Hoje, vemos empresários pressionando funcionários em busca de resultados a todo custo e estes, por sua vez, em uma corrida desenfreada para obtê-los de forma imediata, sem pensar nas conseqüências de médio e longo prazos. Os programas de bonificação praticados por diversas corporações também acabam incentivando os colaboradores a maquiar performances e a sabotar colegas para alcançar o prêmio no final do mês.
Tudo isso reflete uma triste realidade: os atuais executivos e funcionários não vestem a camisa da empresa, fadando-a ao fracasso.
O passado recente nos traz diversos exemplos, como o famoso escândalo da Enron em 2001, uma das maiores companhias de energia norte-americana na época. Com o objetivo de ampliar lucros pessoais em pouco tempo – e a qualquer custo – executivos e auditores foram impulsionados a fraudar balanços financeiros da empresa. A conseqüência desse ato levou a Enron à falência, muitos funcionários ao desemprego e acionistas a prejuízos astronômicos.
A metodologia do “cada um com seus problemas” aplicada pela Enron e por uma infinidade de empresas, não foi suficiente para mostrar aos funcionários do mundo todo como é imprescindível pensar na corporação como um organismo vivo e único, alimentado pela força de trabalho coletivo. Anos depois, deparamo-nos com um cenário bastante semelhante. Pensando somente no próprio lucro, investidores aplicam recursos em títulos atrelados a hipotecas de alto risco e colocam em jogo uma cadeia de segmentos econômicos e empregos.
A crise financeira coloca, agora, o mundo em um divisor de águas. Os modelos antigos deixam de ter valia e as relações de trabalho, assim como o atual modelo de capitalismo, precisarão encontrar um meio termo, sem paternalismo ou liberalismo ilimitado.
A nova geração de trabalhadores precisará de estímulos diferentes dos recebidos até o momento para que uma mudança de comportamento aconteça. É necessário muito treinamento para potencializar o autoconhecimento e as capacitações de cada um dentro de uma equipe, principalmente em tempos de crise. O famoso ditado “a união faz a força” nunca caiu em desuso, e serve de objetivo para que a empresa e seus colaboradores consigam enfrentar o momento de instabilidade sem grandes perdas. Somente uma gestão adequada de pessoas pode garantir os ânimos da equipe, evitando perdas de produtividade e de entusiasmo para o trabalho.
Mas não cabe somente à corporação a decisão de mudar. Investir em treinamento pessoal, ao invés de esperar que a iniciativa seja tomada por terceiros, é uma ótima saída. Em um ambiente de forte concorrência interna, visto anúncios de demissões e férias coletivas por parte de grandes empresas em meio à crise financeira, o profissional mais qualificado e que souber lidar melhor com as turbulências e as demandas do trabalho terão lugar garantido.
Apenas com o engajamento de todos os colaboradores, as organizações potencializarão as suas chances de sobrevivência nesse mercado de incertezas. Quando seus funcionários finalmente voltarem a vestir a camisa, elas conquistarão a perenidade necessária para garantir um crescimento sustentável, sem riscos.
