MBTI®, Animus e Anima e função inferior

Vivemos em uma sociedade em que os princípios do masculino e feminino estão distorcidos. Há, ainda, muita disparidade entre as duas energias Animus e Anima.

Carl Gustav Jung, criador da teoria que inspirou Myers e Briggs, já falava, há muito tempo, sobre a necessidade de estar em equilíbrio com o animus e a anima. Neste artigo vamos trazer conceitos que contemplem essa dualidade, assim como discorrer sobre como o MBTI® pode auxiliar, na complementariedade dos opostos.

Para Jung. o princípio feminino (anima) está vinculado ao eros materno, que é a função da conexão, emoção, integração, sentimento e relação, enquanto que o princípio masculino (animus) corresponde ao logos paterno, que está associado à cognição, ao discernimento, ao intelecto, à razão.

Todas as pessoas possuem anima e animus. Muitas vezes, o que ocorre, é um desequilibrio entre eles.

Na tradicional medicina chinesa, também há um conceito que corrobora a ideia de Jung. Wilhelm (2006) define dessa forma:

Em seu sentido original yin significa “o nebuloso”, “o sombrio”, e yang significa na realidade “estandartes tremulando ao sol”, ou seja, algo que “brilha”, ou “luminoso”.

Black And White Yin And Yang Simple Icon On White Background. Concept Of Dualism In Ancient Chinese
Figura 1 Yin Yang: símbolo de harmonia e equilíbrio.

Esses dois conceitos foram transferidos e aplicados ao lado iluminado e ao sombrio de uma montanha ou rio. No caso de uma montanha, a vertente sul é o lado iluminado e a do norte, o lado sombrio, enquanto que no caso de um rio visto do alto o lado norte é o iluminado (yang), pois reflete a luz, e o sul é o lado sombrio (yin) […] (p. 9).

Vemos, assim, que o Yin está relacionado com a escuridão, enquanto o Yang está atrelado à luz. Foram os camponeses, inspirados pelos ciclos diários que definiram dessa forma:

O Dia corresponde ao Yang e a Noite ao Yin, e, por conseguinte, a Atividade refere-se ao Yang, e o Descanso, ao Yin. Isto conduz à primeira observação da alternância contínua de todo fenômeno entre os dois pólos [sic] cíclicos, um correspondente à Luz, Sol, Luminosidade e Atividade (Yang) e o outro à Escuridão, Lua, Sombra e Descanso (Yin) […]. O céu contendo o sol, a lua e as estrelas, sobre os quais os fazendeiros chineses baseavam seus calendários, corresponde ao Tempo; a Terra […] corresponde ao Espaço. Pelo fato do sol nascer no Leste e se pôr no Oeste, o primeiro corresponde ao Yang e o último ao Yin (Maciocia, 1996, p. 3).

Podemos, então, associar o yin a certa condição mais passiva, vinculada ao resfriamento da terra, à umidade, ao elemento água. Em contraposição, o yang está associado à atividade, ao fogo e à transformação.

Arquétipos de Jung

Vale ressaltar que Jung, quando construiu a teoria dos arquétipos, diferenciou dois tipos de inconsciente: o individual e o coletivo.  De acordo com Stein (2000), podemos definir o inconsciente coletivo como “um padrão potencial inato de imaginação, pensamento ou comportamento que pode ser encontrado entre seres humanos em todos os tempos e lugares” (p. 205).

Who Are We Man Woman Mirror
Figura 1.1 Mergulho no imaginário humano.

Uma das principais descobertas, ao mergulhar no imaginário humano, foi a ideia de há uma bissexualidade psíquica no homem e na mulher.  Jung se inspirou na própria condição dos genes, os quais determinam, por maioria, uma pessoa ser do sexo masculino ou feminino.

Em Memórias, Sonhos e Reflexões, ele define:

Desde a origem, todo homem traz em si a imagem da mulher; não a imagem desta ou daquela mulher, mas a de um tipo determinado. Tal imagem é, no fundo, um conglomerado hereditário inconsciente, de origem remota, incrustada no sistema vivo, tipo de todas as experiências da linhagem ancestral em torno do ser feminino, resíduo de todas as impressões fornecidas pela mulher, sistema de adaptação psíquico herdado… O mesmo acontece quanto à mulher. Ela também traz em si uma imagem do homem. A experiência mostra-nos que seria mais exato dizer: uma imagem de homens, enquanto no homem se trata de uma imagem geral da mulher, sendo inconsciente, esta imagem é sempre projetada inconscientemente no ser amado; ela constitui uma das razões essenciais da atração passional e de seu contrário.

Segundo a teoria junguiana, a existência da anima e do animus em cada pessoa revela a ponte entre o consciente e o inconsciente.

Estabelecendo uma relação entre as funções inferiores, os arquétipos de anima e animus e o processo de individuação

Antes de explicar cada uma das funções inferiores, algumas questões podem ser respondidas:

  • Como você é quando se comporta de maneira mais alinhada com seu jeito natural e espontâneo? Isto é, que qualidades melhor descrevem você ou o definem como um indivíduo?

Por exemplo, você se descreve como geralmente otimista, cuidadoso com detalhes, preocupado com os outros, e assim por diante.

  • O que você tende a fazer quando não está sendo você mesmo, isto é, nas situações em que percebe que está agindo de um modo diferente de seu estilo usual de comportamento?
  • Que eventos ou circunstâncias costumam provocar as reações e mudanças que você experimenta?
  • O que você ou os outros podem fazer para ajudar no processo de restabelecimento do seu estilo usual?
  • O que você ou os outros podem fazer para impedir o processo de restabelecimento do seu estilo usual?
  • Quais são os aspectos da sua vida profissional mais satisfatórios e estimulantes?
  • Quais são os aspectos da sua vida profissional mais estressantes e menos satisfatórios?
  • Como você lida com o estresse crônico?
  • Que coisas novas você aprendeu sobre si mesmo como resultado de suas experiências incomuns?

Segundo Von Franz, vivemos a ideia de que é possível integrar a função inferior de forma racional. Isto é uma armadilha do ego. Não é sobre executar tarefas simples, mas é uma jornada de abraçar o inconsciente e aceitar as oposições saudáveis da psique:

Assimilar uma função significa viver com ela no primeiro plano. O fato de alguém cozinhar ou costurar um pouco não significa que a função sensação foi assimilada. A assimilação significa que toda a adaptação da vida consciente recai naquela função por algum tempo. A passagem para uma função auxiliar ocorre quando se sente que a atual maneira de viver se tornou “sem vida”, quando se fica, de modo mais ou menos constante, entediado consigo mesmo e com as próprias atividades.

Sentimento introvertido inferior:

Os ESTJs e ENTJs tornam-se hipersensíveis a emoções, tanto suas quanto dos outros, e podem interpretar os comentários dos outros como críticas pessoais, reagindo de forma exagerada.

Também são acometidos por explosões de emoção. Podem chorar escondidos, mas rapidamente voltam para o centro de si mesmos. Estas tipologias são as que menos tempo gastam no estresse. Embora isso pareça positivo, eles podem desenvolver doenças mais sérias, em longo prazo, se não trabalharem as emoções.

Têm dificuldade de comunicar sua perturbação aos outros e, em vez disso, procuram manter sua atitude normalmente eficiente e controlada. Estar no controle é essencial para seu senso de identidade, e por isso é tão importante não perder o controle.

Pensamento extrovertido inferior:

Conhecidos por serem cuidadosos e zelosos, os tipos ISFPs e INFPs tornam-se extremamente críticos e julgadores, quando são acometidos pela função inferior.

Eles também são tomados por autojulgamentos críticos, de sua própria incompetência. Os tipos Sentimento Introvertido fazem julgamentos que são abertamente categóricos, severos, extremados, exageradamente críticos e geralmente sem fundamento.

No lado sombrio de sua função inferior sentem-se geralmente sobrecarregados pela pressão de agir, em geral para corrigir um erro imaginário ou sua própria incompetência.

Sentimento extrovertido inferior:

Os INTPs e ISTPs costumam fazer ainda mais críticas maliciosas aos outros, quando estão estressados. Podem ser agressivos e irônicos, e suspeitar que todas as pessoas ao seu redor são inferiores intelectualmente. Há uma luta interna por controle. Esse quadro pode não ser notado pelos outros, mas torna-se visível quando a percepção rápida, típica do tipo Pensamento Introvertido, é substituída pela lentidão, distração e falta de clareza.

A lógica é levada ao extremo. Eles também se afastam de todas as manifestações de afeto, tendo explosões emocionais inexplicáveis. Neste modelo mental não familiar, eles interpretam demais ou erroneamente os comentários inocentes ou linguagem corporal dos outros como provas de desaprovação, antipatia e rejeição.

Pensamento introvertido inferior:

Os tipos ESFJs e ENFJs, quando estão vivenciando a função inferior, tendem a fazer críticas infundadas e cruéis com as outras pessoas.

Conforme sua energia Extrovertida diminui, a crítica torna-se interna e resulta em condenação veemente de si mesmos. Eles se tornam deprimidos, distantes, arrebatados por sentimentos de inadequação.

Há também algo que chamamos de delírio bem estruturado, ou seja, eles criam uma lógica própria e acreditam nas próprias criações.

Podem também buscar compulsivamente a verdade, através de livros de autoajuda.  Quando reconhecem sua lógica intrincada, tornam-se ainda mais negativos e desesperados.

Intuição introvertida inferior:

Os tipos ESTPs e ESFPs, quando estão na função inferior, perdem a capacidade de enxergar a vida de uma forma positiva e bem humorada.

Podem ficar confusos com os processos internos, criar fantasias desastrosas e possibilidades de futuro assustadoras. Alguns manifestam o medo de enlouquecer.

Também é possível que eles pensem que vão perder seus relacionamentos mais profundos, compreender mal o que os outros disseram e procurar por intenções obscuras nas entrelinhas.

Já que é incomum para tipos Sensação Extrovertida ficarem revirando o passado ou especulando sobre o futuro, seus episódios com a função inferior costumam ser breves e raramente levados adiante.

Intuição extrovertida inferior:

Os tipos ISTJ e ISFJ experimentam o lado sombrio da intuição, quando estão na função inferior. Isso é manifestado pela impulsividade, espontaneidade sem freios, falta de foco, confusão, ansiedade e até mesmo pânico em níveis cada vez maiores, mesmo que externamente eles aparentem estar calmos e despreocupados.

As situações naturais do dia a dia tornam-se catastróficas, porque o futuro adquire um lado sombrio e impossível de ser vislumbrado. Há ansiedade e muita preocupação com todos os eventos que não são passíveis de controle.

Sensação extrovertida inferior:

Os tipos INFJs e INTJs perdem sua capacidade de pensar em longo prazo e lidar com desafios complexos. Podem cometer erros muito simples, ter uma ênfase obsessiva em detalhes irrelevantes.

Também costumam ser frenéticos com limpeza, na tentativa de controlar o ambiente. Podem se tornar hiperativos ou abusar do próprio corpo (sexualmente ou por meio de excessos).

Tipos Intuição Introvertida comem demais ou tem ataques de voracidade com comida ou bebida. Eles relatam que fazem mal a seus corpos de forma obsessiva. Um comportamento típico é entregar-se a esses prazeres de forma compulsiva e depois censurar-se por este mesmo comportamento descontrolado, superficial e destrutivo.

Sensação introvertida inferior:

A Sensação introvertida inferior acomete os tipos ENTP e ENFP. Ela é comumente associada a tudo o que diz respeito aos cinco sentidos, de maneiras dolorosas.

Retirar-se do contato com os outros e depressão são algumas das formas que podem surgir, para essas tipologias. O processamente de informações não é agradável para eles. Os ENTPs e ENFPs relatam uma perda geral de entusiasmo e motivação, que é acompanhada por baixa energia e estados reflexivos desconfortáveis e incapacidade de encontrar prazer em atividades geralmente prazerosas. Isto pode levar a autonegligência e com o tempo, a doenças.

As obsessões também acometem essas tipologias, através de detalhes irrelevantes. Podem se sentir irritados, transformar pequenos problemas em grandes e intransponíveis obstáculos. Também pode haver muita ênfase corporal, como excessos de atividades ou uso de substâncias ilícitas em demasia.

Anima e Animus em cada tipologia

Agora, é preciso estabelecer as conexões de cada função inferior com o masculino e feminino, buscando trazer o equilíbrio para a pessoa em questão. A tarefa, contudo, será sempre mais complexa do que supomos. Segundo Jung:

A anima, sendo feminina, é a figura que compensa a consciência masculina. Na mulher, a figura compensadora é de caráter masculino e pode ser designada pelo nome de animus.

Se não é simples expor o que se deve entender por anima, é quase insuperável a dificuldade de tentar descrever a psicologia do animus.

Referências bibliográficas:

  • JUNG, C., VON FRANZ, M. L., HENDERSON, J. L., JACOBI, J. & JAFFÉ, A. O homem e seus símbolos, 23 ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2002.
  • JUNG, E. Animus e Anima, 5 ed. São Paulo: Cultrix, 2006.
  • Maciocia, G. (1996). Yin-yang. In Os fundamentos da medicina chinesa: um texto abrangente para acupunturistas e fitoterapeutas. (pp. 1–19). São Paulo: Roca.
  • Wilhelm, R. (2006). I ching: o livro das mutações. São Paulo: Pensamento.

Tema: MBTI®, Autoconhecimento.

Subtema: Animus e Anima: as conexões de cada função inferior com o masculino e feminino.

Objetivo: Autoconhecimento, Autodesenvolvimento, Coaching.

Este conteúdo é de propriedade da Fellipelli Consultoria Organizacional. Sua reprodução; a criação e reprodução de obras derivadas – a transformação e a adequação da obra original a um novo contexto de uso; a distribuição de cópias ou gravações da obra, na íntegra ou derivada -, sendo sempre obrigatória a menção ao seu autor/criador original.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *