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A individuação, em geral, é o processo de formação e particularização do ser individual e, em especial, é o desenvolvimento do individuo psicológico como ser distinto do conjunto, da psicologia coletiva. É, portanto um processo de diferenciação que objetiva o desenvolvimento da personalidade individual.”
– Carl Gustav Jung
O MBTI® vem contribuindo, há mais de meio século, com a busca pelo autoconhecimento e o desvendar da personalidade única de cada pessoa. Katharine Briggs e Isabel Myers são responsáveis por simplificar os complexos conceitos de Carl Gustav Jung, e trazê-los à tona a todos os tipos de indivíduos.
Talvez a descoberta de nossos processos mentais, conhecidos por dominante, auxiliar, terciário e inferior, seja o grande diferencial dessa ferramenta.
Ao conhecer as funções nas quais eu gasto a maior parte de meu tempo, sou capaz de integrar minhas habilidades a elas. E, na contramão, quando conheço meus gatilhos de estresse, estou apta a lidar com eles, de forma inclusiva e harmoniosa.
Contudo, são poucas as pessoas que conhecem o processo de individuação. Dada a sua complexidade, muitas vezes nos limitamos a conhecer nossas funções e seguir adiante. Aqui, buscaremos clarificar as etapas desse processo.
Jung foi acessar esse conteúdo a partir dos sonhos que seus pacientes relatavam a ele. Pelos seus cálculos, foram mais de 80.000 sonhos interpretados e analisados, ao longo de sua carreira como terapeuta. A grande revelação, nesse trabalho, foi descrever que, embora dissessem muito da vida do sonhador, os sonhos também possuíam uma conexão com o inconsciente coletivo.
Alguns de nossos sonhos são recorrentes ao longo dos anos. No entanto, muitas vezes há mudanças. As mudanças nos relatos do sonhador estão intimamente ligadas ao trabalho consciente de buscar melhorar a si mesmo. Exige, pois, uma participação ativa do ego, um árduo desejo de compreender-se.
Embora tenhamos ou não consciência desse processo, todos nós passamos pela individuação. Contudo, será muito mais feliz aquele que conseguir dedicar seu ego, conscientemente, à abertura.
Poder-se-ia dizer que todo o mundo, com sua confusão e miséria, está em um processo de individuação. No entanto, as pessoas não o sabem, esta é a única diferença. A individuação não é de modo algum uma coisa rara ou um luxo de poucos, mas aqueles que sabem que passam pelo processo são considerados afortunados. Desde que suficientemente conscientes, eles tiram algum proveito de tal processo.”
– Carl Jung
Assim como a jornada do herói, não é fácil e muitas vezes não é prazeroso lidar com a consciência de si mesmo. Cada pessoa é um universo em construção, que vai lidar bem ou mal com alguma das etapas. Ou seja, não há manual ou script para auxiliar a pessoa a viver o processo.
As sete fases
Jung, embora não tivesse chegado a conclusões definitivas nesta matéria, na qual as fases devem também ser entendidas como categorias ou formas do processo de individuação, pois o seu modo de sucessão é mais o da metamorfose do que o de uma sequência linear preestabelecida, estudou atentamente este problema e inclinava-se a sustentar a existência de sete momentos principais da individuação.
- O apelo ou vocação
Esta primeira fase subdivide-se em três momentos essenciais:
1.1) Tempo de incubação preparatória, na qual se leva a cabo uma “dissociação” dos “pares de opostos” da personalidade, convertendo a sua “ambitendência normal” (cf. Bleuler), em uma desarmônica unilateralidade. Pode-se produzir então esse “estado de exceção” que se apresenta, sob a forma de sentir que nos falta alguma coisa no mundo exterior, uma “incapacidade de amar” as coisas e as pessoas. Adquire um particular realce, enquanto espécie de compensação a esse estado geral de falta ou carência, “a importância global da fantasia parturiente”.
É como acordar e sentir que nos faltam os dedos das mãos.
1.2) Tempo da consciência do apelo, quando se chega a entender o Selbst como a voz “do amigo da alma”, isto é, “o outro em mim”. Como disse Rimbaud: je est un autre, e, depois da estadia no inferno do momento anterior, virão as iluminações. Jung confirma-o: “a hora do nascimento da sua grande personalidade chama-se Erleuchtung, iluminação”.
1.3) Tempo da decisão moral ou resposta ao apelo do Si-mesmo, momento ético em que se opera a escolha entre seguir o seu chamamento ou ignorá-lo. Para certos indivíduos, porém, parece haver neles “certa inclinação (Geneigtheit) a escutar as discretas vozes noturnas” que favorece uma resposta afirmativa ao apelo.
Não se pode esquecer que o caminho que nos é oferecido a percorrer é árduo e difícil, pois “a posse de segredos separa da comunidade dos homens”.
- A desalienação parental
Representa a “saída de casa” do herói. A casa é o símbolo da mãe e do inconsciente. É como se cada novo momento ou fase do processo de individuação representasse uma reencarnação ou reconstituição de um perpétuo matricídio simbólico, repetindo-se em níveis distintos.
- A desalienação social ou desmascaramento
“Em todos os casos em que se observa uma identidade com a persona, a imagem da alma transfere-se a uma pessoa real”. Momento da ultrapassagem da expectativa do outro e da afirmação autônoma de si próprio. O sujeito efetua a distinção clara entre o Si-mesmo e o Si-para-os-outros. “(…) O espelho está detrás da máscara… Esta é a primeira prova de coragem no caminho interior”.
É quando alguém abdica das máscaras opacas e só passa a usar máscaras transparentes.
- A integração da sombra
As trevas encerram em si a luz, como diziam já os gnósticos. Assim também a sombra, ainda que pareça só negativa, encerra em si algo de positivo. Como dito por Jung, “não existe no fundo nenhum bem do qual não possa surgir o mal, nem nenhum mal do qual não possa aparecer um bem”. Por outro lado, “a totalidade não constitui uma perfeição senão uma plenitude”. Razão pela qual ela não deve ser confundida a um anseio do logos masculino, pois é antes uma condição consubstancial ao eros feminino.
Como é costume dizer-se, quem mais alto voa cai de maior queda; mas, vice-versa, aquele que mais se afunda no abismo interior é também aquele que mais alto pode ascender; encontram-se belas formulações deste princípio entre os românticos, e em particular em Goethe.
Todavia, adverte-nos Jung, “quem se interna em Si-mesmo arrisca-se a encontrar-se consigo mesmo”.
- A integração do anima-animus
Se a discussão com a sombra, informa Jung, é a prova que consagra em oficial o aprendiz, a discussão com a anima é a prova que consagra em mestre o oficial. Acontece que não se pode conquistar a anima por intermédio da violência, senão por meio do amor, “por paciência, sacrifício e entrega”, próprios do adepto ou iniciado ao conhecimento dos mistérios.
Note-se o uso junguiano de uma metáfora militar, que religa o saber ao poder: curiosamente, Freud também utilizou em “exército em marcha” para designar simbolicamente a atividade do inconsciente, quer individual quer das multidões ou massas.
Não se pode esquecer que a discussão com os conteúdos do inconsciente “representa a grande tarefa do processo de individuação”: ao estado do adepto em conversação com a sua regina/anima, que corresponde na mulher o estado de soror mística em conversação com o seu rex/animus. Rei e rainha, o amor é, ao mesmo tempo, na sua plenitude, masculino e feminino… e não pode simbolizar-se melhor do que pelo hermafrodita primogênito ou Mercúrio alado: corpo e espírito, de uma só vez, o mais baixo reunido ao mais alto.
- Possível inflação e acesso ao sentido sapiencial do espírito
Esta fase recapitula, de algum modo, todas as anteriores, como protótipo do próprio processo de individuação, com os seus dois tempos bem definidos: 1. É preciso que o Eu morra, isto é, que renuncie aos meus desejos narcisistas megalômanos; 2. É necessário que o Eu renasça ou ressuscite dessa morte simbólica.
Enquanto, para Freud, a lei vem de fora, do universo sociocultural, e deve ser internalizada pelo sujeito, para Jung a lei vem de dentro e deve ser assumida por uma decisão ética, através, e graças à função transcendente do símbolo unificador de contrastes, transformando a lei da natureza em lei própria. Para Freud, a lei está fundamentalmente no pai; para Jung, ela está na mãe… nessa carência de sentido carregada de significado que é tão própria da “anima”: enquanto esta “representa o Archetypus des Lebens, da vida”, o espírito simboliza “o arquétipo do sentido”.
Segundo Jung, “em todo o caos há cosmos, e em toda a desordem há uma ordem secreta, em toda a arbitrariedade há lei permanente, porque tudo o que atua repousa sobre o seu oposto”.
É, aliás, neste contexto que Jung irá reinterpretar a proibição ou tabu do incesto como um produto e expressão próprias do arquétipo, pois este é, por definição, a “forma” do “instinto”, que visa facilitar à libido uma inversão de sentido e um “declive” para a ação transformadora do símbolo.
É certo que Freud teve de recorrer ao seu obscuro conceito de “sublimação” para explicar essa mesma passagem do eros libidinal ao eros espiritual. Convida-se aqui a leitor a julgar por si entre a claridade ou grau de acerto com que as duas teorias interpretam esse estranho fenômeno.
É muito provável que o sujeito caia, ao vivenciar esta fase, em um estado de Mana-Personlichkeit ou “personalidade-Mana”:
É frequente nestes casos a fantasia da “autofecundação”, tal um uroborus mordendo a própria cauda, ou da “autoprocriação” ou autoengendramento como Mercúrio e inclusive a fantasia de ser “pai dos seus pais” e, por fim, “autocriado”.
Pela sua inflação, o “Eu apropriou-se de algo que não lhe pertence… experimentou uma confusão, mistura, que significa também ‘cópula’ com um arquétipo, com uma figura inconsciente”: no homem, vemos “o mago que se apodera do Mana, quer dizer, do valor autônomo da anima”; quanto à mulher, o equivalente do Zauberer seria “a grande mãe (…); a descobridora do grande amor, assim como ele (o varão-mago) é o proclamador da verdade suprema”.
De novo Jung: “A conscientização dos conteúdos que edificam o arquétipo da personalidade-Mana significa para o homem a segunda e definitiva libertação do pai, para a mulher, da mãe, sentindo-se, por causa disso e pela primeira vez, a própria individualidade”.
A figura do Mago ou o símbolo do velho sábio constituem formas do arquétipo do sentido, e este pode melhor caracterizar-se como vivência, durante o processo de individuação, de uma espécie de pensamento primordial que se comporta de modo similar ao que acontece com o pensamento do homem “primitivo” que, não revelando a sua autoconsciência reflexiva, todavia exibe a sua soberana autonomia que lhe vem de participar na sapientia, a sabedoria cuja natureza é eterna.
A personalidade-Mana não é ainda consciente dessa participação; inconscientemente, identifica-se àquilo de que apenas participa. Mas é preciso passar por esta prova de coragem; como refere Jung acerca do Zaratrusta de Nietzsche: “O mago é um sinônimo do velho sábio que remonta por sua vez, em linha direta, ao feiticeiro da sociedade primitiva. É, como a anima, um daimon imortal que atravessa com a luz do sentido as obscuridades caóticas da vida ordinária. É o iluminador, o instrutor e o maestro, psychopompos (condutor da alma) a cuja personificação não pôde escapar sequer o próprio Nietzsche, o “destruidor das tábuas”, visto que fez da sua encarnação em Zaratrusta o espírito superior de uma época pouco menos que homérica, portador e proclamador da sua própria iluminação e do seu êxtase dionisíaco”.
O velho sábio é o pai da alma, a qual é, de uma forma maravilhosa, a sua virgem-mãe. Por isso os alquimistas o designam com o nome de “o antiquíssimo filho da mãe”, aquela a cuja obscuridade essencial ele deve descer ou em cujo regaço se deve deixar submergir. Também a psique gnóstica, incluso ao falar do Espírito Santo, tenderia à sua feminilização sob a forma de Sabedoria do Pai que “repousa no regaço da mãe”.
Por isso mesmo Jung pôde estabelecer uma correspondência entre aquilo que na adaptação biológica é finalidade e “no campo psicológico é sentido”; em última análise, poder-se-á concluir que o arquétipo do espírito é a fonte originária de toda a instituição de sentido.
- A integração plena da personalidade
Já cada fase anterior houvera sido, e de modo mais marcado as três últimas, uma série de sucessivos encontros com essa câmara central do castelo de que falava Teresa de Ávila, em que se espera que o divino esposo se introduza na alma para celebrar os esponsórios eternos.
Este momento representa a imersão nessa câmara onde se vê e se está ao mesmo tempo em todo o castelo.
Nesta última fase, o risco — em todas as fases se correm riscos e se atravessam provas ou provações — correspondente é ser uma ocasião favorável a um processo de “inflação espiritual”, facilmente compreensível se nos relembrarmos que o Eu já integrou o arquétipo do espírito. Como nos explica o Jung:
(…) “enquanto o Si-mesmo é inconsciente ele corresponde ao Super-eu de Freud e se, doutro modo, se lhe subtrai o seu caráter projetivo e deixa de ser, por consequência, a opinião dos demais, a gente consegue enfim saber que é ele mesmo o próprio sim e o próprio não”.
Agora já se compreende que o logos completa o eros, é a sua outra forma, o reverso do verso, porque “o logos é, em termos rigorosos, o principium individuationis, porque dele é de onde saiu tudo e de onde procede tudo que existe sob a forma individual, desde o cristal até ao homem”.
Ao chegar à última fase de nosso processo, portanto, é preciso saber que não acabou. Que o encontro com a maestria é uma queda à incompetência inconsciente. E, assim, talvez seja possível atingir a sabedoria.
Tema: Autoconhecimento, MBTI.
Subtemas: A conscientização do processo de individuação facilitando a compreensão das diferenças de cada um.
Objetivo: Autoconhecimento, Autodesenvolvimento, MBTI, Coaching.
