Comunicação Não Violenta e o feminismo no ambiente profissional

O uso conjunto da empatia e do MBTI® Step IIcomo ferramentas de autodesenvolvimento

Por Mariana Portela

Para além das ideias de certo e errado existe um campo.

Eu me encontrarei com você lá”  

Rumi

 

Ainda falta muito para chegarmos a condições igualitárias e sensatas nos ambientes de trabalho entre homens e mulheres. E não em relação aos salários. Mas em termos de tratamento humano.

As mulheres sofrem demasiadamente pelas mais diversas razões. Nas entrevistas de emprego, por serem bonitas, por escolherem calças brancas e decotes, por atingirem posições de liderança.

É altamente solitário ser uma profissional valorizada no mercado de trabalho e perceber que ainda se dão flores no dia internacional da mulher, como símbolo da fragilidade e da delicadeza.

A advogada Cindy Pludwinski Carbonari chegou muito cedo ao auge de sua carreira, aos vinte e seis anos. Ela me contou o quanto sofreu com piadas sobre suas roupas e as vantagens que poderia obter para fechar um contrato. No entanto, em vez de reagir com agressividade, após ler o livro de Marshall Rosenberg, “Comunicação Não Violenta – Técnicas para Aprimorar Relacionamentos Pessoais e Profissionais”, ela aprendeu que deveria utilizar a vulnerabilidade e fragilidade para comunicar aos seus colegas como se sentia. O resultado foi imediato. Cindy pode perceber que os homens não só a tratavam de forma diferente, como também eram capazes de ensinar aos demais o que ela havia passado. A empatia era, pois, contagiosa.

Carl Gustav Jung já sabia disso…

 O QUE NEGAS, TE SUBMETE. O QUE ACEITAS, TE TRANSFORMA”.

Criador da teoria dos Tipos Psicológicos e corresponsável pela ferramenta de autoconhecimento mais utilizada no mundo, o MBTI®, ele jamais se conformou com a binaridade dos processos humanos. Pelo contrário. No MBTI® há quatro dicotomias (Extroversão e Introversão; Sensação e Intuição; Pensamento e Sentimento, Julgamento e Percepção). Cada uma delas é oposta à outra, mas complementar ao mesmo tempo. Ou seja, não há certo ou errado, bom ou ruim, quando identificamos as tipologias de cada indivíduo, e vemos a riqueza de cada um, com pontos fortes e funções inferiores, fortalecemo-nos como coletividade, uma vez que todos nós somos vulneráveis e frágeis.

Como qualificadora do MBTI®, diversas vezes entrei em sala de aula frente a pessoas altamente competentes e seniores. Não era fácil ser uma mulher, nova e estar à frente daquela sala de aula. Todas as vezes em que me apresentei e valorizei estas questões, e mais, todas as vezes nas quais expus minha insegurança de estar ali, senti que a vibração das pessoas mudava imediatamente. Todos se desarmavam diante de mim. Nas vezes em que me colocava de maneira arrogante, que tentava falar rebuscado, que escolhia as palavras mais difíceis que conheço, as respostas dos participantes eram de repúdio e enfrentamento.

Marshall, pois, dá uma atenção especial à questão das mulheres:

EM UM MUNDO ONDE SOMOS FREQUENTEMENTE JULGADOS SEVERAMENTE POR IDENTIFICARMOS E REVELARMOS NOSSAS NECESSIDADES, FAZER ISSO PODE SER BASTANTE ASSUSTADOR. AS MULHERES, EM ESPECIAL, ESTÃO SUJEITAS A CRÍTICAS. DURANTE SÉCULOS, A IMAGEM DA MULHER AMOROSA TEM SIDO ASSOCIADA AO SACRIFÍCIO E À NEGAÇÃO DE SUAS PRÓPRIAS NECESSIDADES, COM O OBJETIVO DE CUIDAR DOS OUTROS. DEVIDO AO FATO DE AS MULHERES SEREM SOCIALMENTE ENSINADAS A CONSIDERAR O CUIDADO COM OS OUTROS COMO SUA MAIOR OBRIGAÇÃO, ELAS MUITAS VEZES APRENDERAM A IGNORAR SUAS PRÓPRIAS NECESSIDADES.”

Os homens, desde crianças, são treinados a esconder seus sentimentos. A maltratar uns aos outros. Os jogos que aprendem são jogos de guerra, de ataque. Os heróis vencem quando matam os bandidos. Dir-nos-ia Marshall:

A relação entre linguagem e violência é tema das pesquisas de O. J. Harvey, professor de psicologia da universidade do colorado. Ele tomou amostras aleatórias de obras literárias de países mundo afora e tabulou a frequência das palavras que classificam e julgam as pessoas. Seu estudo constata elevada correlação entre o uso frequente dessas palavras e a incidência de violência.”

NÃO ME SURPREENDE SABER QUE EXISTE CONSIDERALMENTE MENOS VIOLÊNCIA EM CULTURAS NAS QUAIS AS PESSOAS PENSAM EM TERMOS DAS NECESSIDADES HUMANAS DO QUE EM OUTRAS NAS QUAIS AS PESSOAS SE ROTULAM DE ‘BOAS’ OU ‘MÁS’ E ACREDITAM QUE AS ‘MÁS’ MERECEM SER PUNIDAS. EM 75% DOS PROGRAMAS EXIBIDOS NOS HORÁRIOS EM QUE EXISTE MAIOR PROBABILIDADE DE AS CRIANÇAS ESTAREM ASSISTINDO À TV, O HERÓI OU MATA PESSOAS OU AS ESPANCA. TAL VIOLÊNCIA COSTUMA CONSTITUIR O ‘CLÍMAX’ DO ESPETÁCULO. OS TELESPECTADORES (A QUEM SE ENSINOU QUE OS MAUS MERECEM CASTIGO) SENTEM PRAZER EM VER ESSA VIOLÊNCIA.”

Mas, de qual maneira podemos transformar essa questão, tão complexa?

Em primeiro lugar, devemos identificar quem somos nós. Ora, pode parecer tão simples! Mas, para mim, como estudiosa do comportamento humano há mais de quinze anos, esta é uma questão que está longe de ser desvendada. É um caminho árduo e inesgotável.

E, para espanto de todos, há muitos homens que prefiram o Sentimento como maneira de tomar decisões. E muitas mulheres que prefiram a Introversão. Esta foi outra anedota que ouvi, incansáveis vezes em workshops de MBTI®. “Toda mulher é extrovertida!” Este tipo de agressão, embora nos leve à raiva, em um primeiro momento, nada mais é do que um pedido de apoio, de suporte, um convite à empatia. Porque somos todos frágeis.

A RAIVA É O RESULTADO DE SENTIMENTOS ALIENANTES DA VIDA QUE ESTÃO DISSOCIADOS DE NOSSAS NECESSIDADES. ELA INDICA QUE ACIONAMOS NOSSA CABEÇA PARA ANALISAR E JULGAR ALGUÉM, EM VEZ DE NOS CONCENTRARMOS EM QUAIS DE NOSSAS NECESSIDADES NÃO ESTÃO SENDO ATENDIDAS.”

Vou utilizar um cliente como case, homem, para ilustrar como é poderosa a análise entre as duas ferramentas. Vivemos em uma era de extremos, em que esquecemos de nossa real condição: a de humanos. Antes de sermos homens ou mulheres, negros ou brancos, pobres ou ricos, brasileiros ou americanos, somos feitos da mesma matéria.

Há muitas ferramentas que podem acelerar e conduzir o crescimento. Vou utilizar, deste paper, o MBTI® Step II™, para ilustrar o poder que temos de catalisar o crescimento pessoal e a nossa capacidade de aumentar a empatia nas organizações e, assim, potencializar nossa humanidade.

Cada pessoa nasce com uma estrutura de personalidade única, ou seja, com uma preferência por Extroversão ou Introversão; Sensação ou Intuição; Pensamento ou Sentimento; Julgamento ou Percepção.

Todavia, com a descoberta das facetas do Step II, não estamos estagnados em caixas, enclausurados nessas estruturas. Somos maleáveis e transitamos para ambos os lados.

  1. é um facilitador que trabalha com grupos de autoconhecimento, em Lisboa. Há mais de vinte anos ele abandonou uma carreira em organizações. É casado, tem quatro filhos. Tem 46 anos.

Estes foram os resultados no Step II™ do cliente em questão.

P. tem esses resultados na escala Extroversão – Introversão:

Apesar de possuir a Extroversão como preferência, P. tem algumas facetas na Introversão. Isto quer dizer que ele também consegue acolher e tem empatia por pessoas que se identificam com essa preferência. Ele consegue ficar em silêncio, ouvir os seus alunos, criar vínculos de intimidade.

P. tem esses resultados na escala Sensação – Intuição:

Apesar de ele ter a preferência pela Sensação, sua faceta principal está na Intuição, ou seja, é capaz de navegar por questões abstratas, fazer associações, buscar o simbólico, acessar teorias, encontrar-se com ideias originais.

P. tem esses resultados na escala Pensamento – Sentimento:

Nesta escala, fica claro como temos uma propensão a julgar de forma errada as questões de feminino e masculino. Equivocadamente, vemos os homens como seres que tendem a não levar em consideração a harmonia, o afeto, a delicadeza. No caso de P., é exatamente o oposto. O Sentimento é a sua função dominante, aquilo que ele faz com destreza, a maior parte do tempo, sua função preferida. E Marshall, uma vez mais, auxilia-me a conectar essa questão:

ESSAS PESSOAS FORAM ENSINADAS A JULGAR A SI MESMAS DE UM MODO QUE IMPLICA QUE O QUE ELAS FIZERAM FOI ERRADO OU RUIM; SUA AUTORRECRIMINAÇÃO IMPLÍCITA PRESSUPÕE QUE ELAS MERECEM SOFRER PELO QUE FIZERAM. É TRÁGICO QUE TANTOS DE NÓS FIQUEMOS ENREDADOS NO ÓDIO POR NÓS MESMOS, EM VEZ DE NOS BENEFICIARMOS DOS ERROS, QUE MOSTRAM NOSSAS LIMITAÇÕES E NOS GUIAM EM DIREÇÃO AO CRESCIMENTO.”

P. tem esses resultados na escala Julgamento – Percepção:

Nesta escala, P. possui a preferência pelo Julgamento, ou seja, é organizado e estruturado no seu dia a dia. Contudo, em algumas situações, ele também consegue flexibilizar-se e agir baseado no aqui e agora. Quando conversamos, ficou claro o quão flexível ele é, ao preparar as aulas, ao entrar no fluxo com os alunos, ao deixar que a combinação entre a sua Intuição e a sua Percepção possam se dar, embora nenhuma das duas sejam suas funções principais, no MBTI®. O que pode indicar dois aspectos: P. está em processo de individuação e/ou o uso contínuo de suas facetas o faz caminhar facilmente para a empatia, conectando-o a um nível mais profundo de humanidade.

Marshall também concorda com a minha tese, acerca desse cliente:

 QUANDO MINHA CONSCIÊNCIA SE CONCENTRA NOS SENTIMENTOS E NECESSIDADES DE OUTRO SER HUMANO, ENXERGO A UNIVERSALIDADE DA NOSSA EXPERIÊNCIA. TIVE UM ENORME CONFLITO COM O QUE SE PASSAVA EM SUA CABEÇA, MAS APRENDI QUE GOSTO MAIS DOS SERES HUMANOS SE NÃO OUÇO O QUE ELES PENSAM. ESPECIALMENTE COM PESSOAS QUE TÊM ESSE TIPO DE PENSAMENTO, APRENDI A APRECIAR A VIDA MUITO MAIS APENAS ESCUTANDO O QUE SE PASSA EM SEU CORAÇÃO, E NÃO CAINDO NAS ARMADILHAS DO QUE ESTÁ EM SUA CABEÇA.”

Marshall distingue o caminho para a Comunicação Não Violenta em quatro fases:

  • Culpar a nós mesmos
  • Culpar os outros
  • Escutar nossos próprios sentimentos e necessidades
  • Escutar os sentimentos e necessidades dos outros

Como P. está altamente conectado às necessidades dos outros, ele pode entrar em contato com as necessidades humanas, colocadas por Marshall:

  • Autonomia:
  • Sonhos, objetivos, valores
  • Planos para elaborá-los
  • Celebração:
  • Celebrar a criação da vida e dos sonhos;
  • Elaborar as perdas
  • Integridade
  • Autointegridade
  • Autovalorização
  • Criatividade
  • Significação
  • Interdependência
  • Aceitação
  • Amor
  • Apoio
  • Apreciação
  • Calor humano

Se conseguirmos utilizar, com maestria, o MBTI® Step IIe a Comunicação Não Violenta, em workshops, em processos de coaching, em teambuilding, em resolução de conflitos, transformaremoss a vida das pessoas. E, quiçá, um dia, esqueceremos a binaridade que tanto nos afeta hoje. Acima das diferenças entre homens e mulheres. O fato de sermos humanos será mais relevante em nossas vidas.

CONTINUO A ME ESPANTAR COM O PODER CURATIVO DA EMPATIA. REPETIDAS VEZES TENHO TESTEMUNHADO PESSOAS TRANSCENDENDO OS EFEITOS PARALISANTES DA DOR PSICOLÓGICA, QUANDO ELAS TÊM CONTATO SUFICIENTE COM ALGUÉM QUE AS POSSA ESCUTAR COM EMPATIA. COMO OUVINTES, NÃO PRECISAMOS DE INSIGHTS SOBRE DINÂMICA PSICOLÓGICA OU DE TREINAMENTO DE PSICOTERAPIA. O QUE É ESSENCIAL É A NOSSA CAPACIDADE DE ESTARMOS PRESENTES EM RELAÇÃO AO QUE REALMENTE ESTÁ ACONTECENDO DENTRO DA OUTRA PESSOA – EM RELAÇÃO AOS SENTIMENTOS E NECESSIDADES ÚNICOS QUE UMA PESSOA ESTÁ VIVENDO NAQUELE MESMO INSTANTE.”

 

Tema principal: MBTI® Step II™, Empatia.

Subtemas: Com a evolução do MBTI para o Step II, vemos com clareza a melhor forma de exercitar a empatia e desenvolver uma melhor comunicação.

Objetivo: Autoconhecimento, treinamento, comunicação, coaching, teambuilding.

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