Organizações sustentáveis são imperfeitas e, sobretudo, humanas

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Inexorável, a meu ver, o grau de dicotomia que se percebe entre as práticas empresariais e o que clama o mundo, a sociedade nestes tempos mutantes, de rupturas, transformações, e a emergência de novos modelos econômicos e de comportamento social, ditados, sobretudo, pelo avanço da tecnologia da informação a serviço de um mundo que se apresenta com matizes diferentes, dual, mais integrado e sem fronteiras, que se faz presente no cotidiano dos indivíduos e organizações de forma irreversível.

O conceito de organizações sustentáveis tem evoluído rapidamente. Há cerca de 15 anos, a relação das empresas com a noção de sustentabilidade era pouco mais que a aspiração de um grupo restrito de pessoas que, por um viés ambiental ou social, acreditava ser possível que o mundo dos negócios incorporasse valores que minimizassem os impactos negativos causados por suas operações. Nesse período, conforme nos ensina o Instituto Brasileiro de Governança Corporativa – IBGC, notamos a evolução de políticas e práticas, que partiram de uma postura mais assistencialista e/ou com foco em eco-eficiência, para um conjunto de ações mais integrado à estratégia empresarial, envolvendo outros níveis de governança, bem como vários grupos de formadores de opinião.

Diante do contexto de transformação por que passa a sociedade, não apenas no Brasil mas, em todo o mundo, obviamente que em graus e condições culturais específicos, noto um denominador comum, qual seja, a necessidade de se considerar o indivíduo e a ética como centro de organizações sustentáveis. Ser sustentável apenas nos aspectos econômico-financeiro, regulatório, de algumas práticas ambientais como a reciclagem, tratamento de resíduos líquidos e sólidos, apesar de importantes, insuficientes para fazer frente ao clamor que surge de uma sociedade que emerge, mais exigente e frustrada com as legítimas expectativas de uma vida melhor, portanto, mais humana. O que temos assistido nas organizações ditas modernas, na sua imensa maioria, é uma agressão à dignidade das pessoas, com práticas e modelos insustentáveis, que privilegiam o ego de dirigentes pouco preparados para um novo ciclo, a exigir líderes mais integrais, mais conscientes sobre a importância da ética como pilar fundamental para a sustentabilidade dos seus empreendimentos, que cuidem de si mesmos com o mesmo esmero e ambição por que buscam os seus lucros. Afinal, quando cuidamos de nós, aprendemos a nos aceitar e assim podemos compreender melhor o impacto do que fazemos sobre as pessoas que conosco interagem.

A propósito, todo ser humano escolhe, constantemente, em sua vida, entre dois caminhos: ou o caminho do ego, ou o caminho da inter-relação com as pessoas. Frequentemente, o caminho do ego é o da dualidade – do conflito e da oposição ao outro e aos acontecimentos. É o caminho do medo, vergonha ou culpa, inveja ou ciúme, apatia ou depressão, cólera ou ódio, vaidade ou orgulho, ressentimento ou desprezo. É o caminho do desequilíbrio que leva a todas as formas de perturbações externas e interiores, transtornos corporais, emocionais e intelectuais. Trata-se, portanto, do caminho que conduz ao mal-estar e à infelicidade para si e para as pessoas que compõem a organização e todos os seus stakeholders, que acabam sendo afetados diretamente por esse círculo vicioso e doentio que vai minando a força da organização e, por conseguinte, de todos os seus membros.

Tenho defendido, em meus artigos, a necessidade de uma nova função de Gestão de Pessoas, a assumir a liderança pela transformação empresarial, para construir o caminho das pedras do que seja uma verdadeira organização sustentável. Um novo modelo pautado no pleno desenvolvimento dos indivíduos, a começar pelo autoconhecimento e dos efeitos que o ego dos seus dirigentes provoca no funcionamento da organização , seguido de um resgate da ética, com formação e a reconstrução de um modelo que privilegie as práticas éticas em todas as suas dimensões. Negócios que colidem com a ética são indignos, portanto, insustentáveis.

Isso vai requerer uma nova geração de profissionais de Gestão de Pessoas, que conheçam sobre a natureza humana e, sobretudo, que gostem das pessoas. Paradoxal mas tenho visto ao longo da minha trajetória profissional, modelos de gestão por e-mail, por ausência do contato, totalmente movidos por processos frios e impessoais, de certa forma, um tanto quanto robotizados. O ser humano, apesar das nossas imperfeições, e que bom que somos imperfeitos, pois que assim sendo, somos cada vez mais humanos. Humano significa ter ego, ego implica na compaixão por aceitar como somos, implica que nosso código genético é da gratidão pelos elevados princípios da solidariedade humana, da ética, da generosidade. Portanto, organizações sustentáveis são imperfeitas e, sobretudo, humanas.


Estamos cansados de modelos frios, impessoais, recheados de jargões e de práticas que colidem com a evolução da vida, com o que é humano.


Na vida de um ser humano, uma das características da passagem do caminho do ego para o caminho da inter-relação com as pessoas é a manifestação de uma viva gratidão que promove a generosidade material, emocional, intelectual e espiritual, como a capacidade de perdoar: o perdão a si mesmo e a todos que, presumidamente, são ou foram responsáveis por suas próprias dificuldades e problemas. Eu acredito no ser humano, portanto, essas duas qualidades essenciais que são a gratidão e o perdão manifestam-se graças a um trabalho sobre si e desencadeiam ótimos resultados.

Um chamado que ecoa cada vez mais alto, para que organizações humanas, imperfeitas e eticamente sustentáveis emerjam e ganhem força. Nenhuma área mais apropriada que a de Gestão de Pessoas para abraçar tão nobre missão.

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