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O poder da neuroplasticidade para a criatividade.
“A vida humana é continuamente entremeada de ritual, bem como de práticas animalescas. É uma intrincada trama de razão e rito, de sabedoria e religião, prosa e poesia, realidade e sonho… O ritual, como a arte, é essencialmente o término ativo de uma transformação simbólica de experiência. Origina-se no córtex, não no ‘cérebro arcaico’; mas ele se origina de uma necessidade elementar daquele órgão, uma vez que o órgão se desenvolveu até a condição humana.”
– Susane Sanger
Os estudiosos de Neurociência sabem, muito bem, quais são os impactos do cérebro reptiliano nos comportamentos humanos. Por mais que nos sintamos extremamente mentais, protagonistas e donos de nossas existências, há um gatilho pela sobrevivência, que se sobrepõe a qualquer racionalidade.
O ser humano, no fim das contas, não quer vivenciar a mortalidade. E quem a garante, em última instância, é o cérebro reptiliano.
De acordo com Paul McLean:
Cérebro reptiliano (ou Complexo-R) é a parte mais primitiva de nosso cérebro. É responsável direto por mais de noventa por cento de tudo o que acontece em seu corpo (e mente) no dia a dia, bem como sua relação com o meio ambiente e as demais pessoas, restando muito pouco para as outras partes que formam o cérebro mais evoluído dos primatas (cérebro límbico, córtex e neocórtex). É responsável pelo comportamento automático, comportamento repetitivo e comportamento imitativo. Possui duas emoções básicas: agressão e medo, diretamente responsáveis pela sobrevivência do indivíduo (ser vivo). As demais emoções, como raiva, tristeza, alegria, bem como emoções mais refinadas como, afeto, empatia e compaixão, estão no nível do cérebro límbico. O cérebro reptiliano é paranóico por natureza, pois para ele tudo é ameaça. Na verdade, ele passa cerca de vinte e cinco horas por dia rastreando e examinando tudo ao seu redor em busca de alguma ameaça em potencial. Situações, objetos, pessoas, outros seres vivos, ideias (diferentes das suas), crenças (que não sejam as suas), tudo pode ser uma ameaça.

O conceito do cérebro trino, proposto por McLean, foi originado na década de 1970 e até hoje vem sido utilizado como fonte de pesquisa para todos os neurocientistas. O trabalho divide nosso cérebro em 3: o cérebro reptiliano, que é o sistema dos répteis (nossa consciência irracional); o cérebro límbico, que é o dos mamíferos, (nossa consciência emocional); e o neocórtex, que nos diferencia de todas as outras espécies da natureza (nossa consciência racional). Em termos numércos, essa divisão está em 7% de néocortex, 38% de sistema límbico e 55% do cérebro reptiliano.
De acordo com estes dados, fica fácil fazer a ponte com a teoria de Maslow, que criou a pirâmide das necessidades humanas. Sabe-se que, em termos concretos, o ser humano precisa ter suas necessidades básicas atendidas, para depois poder ir ao topo da pirâmide.

Fica fácil perceber que, embora tenhamos cada vez mais um desenvolvimento do néocortex, há uma vulnerabilidade absurda, em todos os seres humanos, proveniente do cérebro reptiliano.
Segundo o psicológo Daniel Lascani:
Em nossa natureza trina, é preciso frear alguns aspectos de nosso cérebro reptiliano, e ativar outros, justamente, pelo fato de termos um neocórtex, racional, analítico e cartesiano, bem desenvolvido, para avaliar cada situação. O grande desafio é buscarmos aumentar a porcentagem de nosso neocórtex racional. Uma vez resolvidas nossas necessidades primordiais, reptilianas, devemos deixá-las dormentes, sem que cheguem nas dimensões de nosso comportamento. Pois, ao que parece, conforme já citado por diversos autores históricos, o ser humano encontra-se em plena hipnose, reptiliana, deixando-se, inconscientemente, dominar-se por seus instintos primitivos, em vez de explorar, justamente, o que nos diferencia de todas as outras espécies, que é o nosso potencial de consciência racional. Ao contrário desta corrente, o ser humano historicamente, está automatizado, em padrões de ações e reações, defesas e ataques e proteções territoriais. Estas são características claramente reptilianas. No cunho popular, em diversas culturas diferentes, pode-se encontrar uma mesma expressão, tal como a famosa: ‘Lei da Selva’, quando deveríamos aproveitar mais a ‘dádiva biológica’ do pensamento cartesiano e racional: nossa consciência.
Insights de David Rock
David Rock, criador do método de neurocoaching, pode perceber, em suas profundas pesquisas com líderes ao redor do globo, que alguns insights são fundamentais, para a mudança efetiva no cérebro e o controle dos instintos reptilianos.
Rock baseou-se em dados de pesquisa do cérebro límbico para criar seu modelo. O acrônimo SCARF, que significa Status, Certeza, Autonomia, Relação e Justiça – cinco gatilhos principais que ativam o cérebro límbico, positiva ou negativamente, em nosso relacionamento com os outros. O cérebro límbico nos permite interpretar o mundo interior de outra pessoa, uma estratégia de sobrevivência aprimorada que não faria parte do conjunto de habilidades cerebrais répteis de um dinossauro, por exemplo.
Estamos condicionados a reagir no interesse da sobrevivência a qualquer ameaça percebida.
Em seu imperativo para garantir a sobrevivência dos seres humanos, o cérebro límbico não consegue lutar ou fugir em menos de um quinto de segundo, 24 horas por dia.
Estar consciente (ao usar o modelo SCARF) de nossas respostas cerebrais límbicas nos dá opções de como intervir em uma resposta desencadeada.
Os princípios do SCARF sugerem que nada é mais importante para todos os níveis de liderança hoje do que a autorreflexão e a atenção plena, se os líderes desenvolverem a consciência de seus próprios pensamentos e sentimentos.

Além disso, o cultivo da consciência de si e dos outros é sustentável apenas se praticado diariamente, para que se torne uma habilidade incorporada induzida pelo aprendizado experimental e pelo esforço repetido.
As habilidades relacionais necessárias para engajar os outros de maneira positiva por meio do modelo SCARF estão dentro da capacidade da maioria dos adultos que funcionam normalmente. De fato, nada poderia ser mais importante para os líderes dominarem. De acordo com pesquisa recente conduzida por Lisa Feldman Barrett, trabalhar e viver na presença de palavras constantemente depreciativas e linguagem corporal negativa pode causar danos irreversíveis ao funcionamento do sistema imunológico.
Então, o que devemos incentivar líderes e gerentes a fazer?
Para começar, podemos incentivá-los a reconhecer a importância de se afirmar em contextos sociais. Afirme o status de todos.
Quando o status é afirmado, a capacidade de atenção plena e consciência autocrítica são aprimoradas.
Fornecer segurança, comunicando-se com frequência e fazendo perguntas para verificar o entendimento comum. Criar autonomia, ajudando as pessoas a desenvolver suas próprias ideias, fazendo boas perguntas, desafiando e afirmando. Estabelecer relacionamentos baseados na confiança, feedback oportuno e engajamento positivo. Estar ciente de que uma liderança forte precisa trabalhar conscientemente contra a maneira como o cérebro deseja funcionar – isto é, encontrar soluções para os outros, resolver o problema! Garantir justiça. Esteja disposto a ouvir, sem defesa, as experiências de injustiça dos outros.
Neurociência da criatividade
Outro fator que está, atualmente, sendo muito discutido pela comunidade científica diz respeito à criatividade e à necessidade de termos esse processo em voga, nos dias atuais.
A agilidade do cérebro e a neuroplasticidade são atributos que nos tornam mais adaptáveis e resilientes. As crises geopolíticas e psicossociais nos estão impactando em níveis sem precedentes. Assim, um futuro distópico está sendo cocriado por todos.
A agilidade cerebral trabalha com inúmeras ferramentas: dominar nossas emoções; entender a conexão cérebro-corpo; confiar em nossa intuição; tomar decisões com responsabilidade social; permanecer motivado para alcançar nossos objetivos; e reformular a criatividade para nos permitir projetar um futuro com o qual possamos nos sentir bem.
A criatividade é capaz de tirar o máximo proveito do poder da neuroplasticidade (a capacidade do cérebro de se mudar) para tornar a inovação social mais eficaz e ter um impacto positivo nas populações de cérebros, e não apenas no nosso.
A mudança começa internamente. Uma compreensão de como o cérebro funciona, elevando de inconsciente para consciente os fatores determinantes de nosso comportamento que podem ser barreiras ao sucesso; preparar o cérebro para perceber e aproveitar oportunidades que, de outra forma, poderiam ter passado por nós; transformando “falta” de pensamento em abundância; e manifestar os resultados do mundo real que desejamos para nós e para as gerações futuras leva a um efeito cascata de saúde, riqueza (sob qualquer forma que possa ser) e bem-estar. Os principais relacionamentos são aprimorados e as pessoas são inspiradas. É aqui que a ciência encontra a espiritualidade – uma combinação poderosa que pode colher benefícios para todos. Minha pesquisa para reformular a definição de criatividade, baseada na neurociência, começou em 2013 com uma conversa no Stanford d.school, um centro de inovação, colaboração e criatividade. Sua missão é ajudar as pessoas a se tornarem inovadoras diárias, em todos os lugares.
Não é à toa que, nos processos de coaching, é estimulado que o coachee imagine o melhor cenário possível para o seu futuro. A criatividade liberta. Permite-nos direcionar todo o poder do nosso cérebro para criar a vida que imaginamos para nós mesmos.
Com o pensamento livre de amarras, outros caminhos, até o momento invisíveis, tornam-se visíveis e palpáveis.

Um cérebro criativo é aquele que pode usar ideias de maneiras inesperadas, ao combinar pensamentos antagônicos para promover novas conexões mentais. Esta é a nova superpotência (e ao mesmo tempo antiga) da mente humana: reinventar, imaginar, melhorar e repensar. Quando pensamos com todo o cérebro e dedicamos todo o nosso poder criativo a uma situação ou problema, vemos a possibilidade em vez de outros verem limitações. A criatividade nos dá o poder da interpretação.
Para ser criativo, também precisamos desenvolver certo nível de confiança em nosso direito de expressar nossa opinião única sobre as coisas; valorizar nossas próprias ideias e interpretações.
Há muitos seres humanos que possuem a limitação autoimposta de não serem criativos. É suposto que há pessoas com predisposição à criatividade, enquanto outras estão fadadas a seguir os rumos estabelecidos, sem questionar o status quo. Somos ensinados a pensar na criatividade como algo muito definido (muitas vezes vinculado a um talento natural para a arte). Supõe-se, como um “cérebro lógico”, que você tem uma disposição “criativa” ou não.
Atualmente, a neurociência está explorando o que caracteriza as mentes criativas. Pesquisadores de Harvard recentemente identificaram um padrão de conectividade cerebral associado à geração de ideias. Em seu estudo, as pessoas foram colocadas em um scanner cerebral e pedidas para criar novos usos para objetos do cotidiano, como uma embalagem de meia, sabão ou chiclete. Algumas pessoas estavam cheias de usos cotidianos, sem imaginação, e achavam difícil filtrá-las, por isso provavelmente respondiam com exemplos óbvios, como cobrir os pés, soprar bolhas ou conter chiclete. Pensadores altamente originais, por outro lado, mostraram forte conectividade entre três redes do cérebro (mente, pensamento concentrado e atenção seletiva), quando estavam pensando e tiveram ideias prontas para uso, como uma filtragem de sistema de água, um selo para envelopes e um fio de antena.
Para ser criativo, em primeiro lugar, é preciso acreditar que o cérebro não tem limites e a imaginação é algo que pode ser lapidado. Isto tudo está conectado com o cérebro reptiliano. A falta de coragem para começar.
Referências bibliográficas:
- https://www.psicologia.pt/artigos/ver_opiniao.php?3-cerebros&codigo=AOP0496
- http://2uxlo5u7jf11pm3f36oan8d6-wpengine.netdna-ssl.com/wp-content/uploads/2016/06/Rock__Schwartz_sb_43_06207.pdf
- https://eduardolbm.wordpress.com/2014/09/01/complexo-r-cerebro-reptiliano/
- Beaty, R.E., Kenett, Y.N., Christensen, A.P., Rosenberg, M.D., Benedek, M., Chen, Q., Fink, A., Qiu, J., Kwapil, T.R., Kane, M.J. and Silvia, P.J., 2018. Robust prediction of individual creative ability from brain functional connectivity. Proceedings of the National Academy of Sciences, 115(5), pp.1087–92.
Tema: Neurociência, NLI®.
Subtemas: O cérebro não tem limites para o exercício da criatividade.
Objetivo: Autoconhecimento, Autodesenvolvimento, Desenvolvimento Organizacional, Desenvolvimento de Liderança, Desenvolvimento de Carreira, Coaching, Neurocoaching, Coaching nas Empresas.
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