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A cognição, de forma simplificada, pode ser definida como o processamento de informação sensorial ou interna para a produção de comportamentos ou pensamentos. Ela abrange fenômenos como a percepção, pensamento, tomada de decisão, memória, atenção, emoção, regulação do comportamento, linguagem, etc. Dentre os variados processos, existem aqueles que necessitam de atenção constante ou uso extensivo da memória de trabalho (memória temporária com fim de memorizar ou utilizar informações), como realizar cálculos, raciocínio lógico, resolução de problemas e a própria tomada de decisão (Sternberg, R. J. & Sternberg, K., 2016).
Um dos processos cognitivos citados é a tomada de decisão, a habilidade de escolhermos uma opção dentre várias outras disponíveis. Ela desperta interesse nas mais variadas áreas por sua grande influência no rumo de nossas vidas. Sabemos que, complexos como somos, escolhemos coisas em nosso dia a dia baseadas em diversos fatores intrínsecos de cada um de nós. Mas… será que a Neurociência tem algo a acrescentar sobre isso? Afinal, é normal observarmos alguns padrões comportamentais que se sobressaem entre os indivíduos de uma sociedade ou como espécie no geral. Muitas empresas, inclusive, já se aproveitam desses fenômenos para induzir seus clientes ou funcionários a agirem de acordo com seus interesses, mas nunca foram comprovados cientificamente ou aprimorados.
A tomada da decisão pode ser dividida em três estágios (Ernst, M., & Paulus, M. P.,2005):
Estágio 1 – Momento da formação das preferências dentre as opções:
Diversas teorias levantam questões a respeito dos processos envolvidos nesse estágio, dentre elas temos a do aprendizado por Condicionamento Clássico, Condicionamento Operante, além de teorias matemáticas que envolvem probabilidade, riscos, etc. Realizamos a análise de fatores como valência e atividade (arousal) da opção, riscos envolvidos, nível de incerteza e tempo e os emocionais, o que nos dá ideia de áreas que estão muito envolvidas nessa etapa do processo. O córtex parietal tem sido indicado como uma estrutura importante na computação e avaliação de probabilidade, giro cingulado anterior nos processos de incerteza com a integração de sucessos e erros ao longo do tempo, córtex frontal dorsolateral e orbitofrontal que pode ter relação com o processo de Editing Options, fenômeno que nos permite ignorar opções menos atrativas, parear as de valor semelhante podendo ser algo consciente ou não.
Estágio 2 – Execução da Ação:
Quando iniciamos, performamos e completamos as ações que foram definidas no estágio 1. Nesse momento, as ações concorrentes são inibidas, sequência de ações são implementadas e erros são corrigidos. Assim, recrutamos estruturas como o giro cingulado anterior e pré-frontal para monitoramento de erros e detecção de conflitos, monitorando toda a ação.
A motivação na execução da tarefa não pode ser ignorada, temos então provavelmente uma intervenção importante do núcleo accumbens na modulação de questões motivacionais, assim como diversas outras regiões.
Estágio 3 – Experiência dos resultados:
Nesta fase, passamos analisando e comparando com o que era esperado de maneira que atualizamos os valores. Nos adaptamos a partir das conclusões tiradas neste momento, um sinal baseado na diferença do novo com a expectativa tem ampla relação com o nível de aprendizado. Segundo pesquisas com neuroimagem funcional, estruturas como estriado e córtex orbitofrontal estão envolvidas nessa taxa de diferença de sinal.
Ainda no processo da tomada de decisão, sofremos influência de heurísticas e vieses que geralmente nem temos consciência. Heurísticas e vieses são atalhos que nossa mente tende a adotar nos momentos de decisões para poupar energia e tempo. – (Sternberg, R. J. & Sternberg, K., 2016).
- Satisficing: Nesta heurística, o indivíduo analisa individualmente as opções até encontrar aquela que satisfaça um requisito mínimo. Embora seja uma estratégia útil para decisões corriqueiras, como escolher um sapato numa loja, pode ser perigosa nas situações erradas. Um médico, ao se deparar com uma série de sintomas de um paciente, pode fazer o diagnóstico errado por se prender a primeira possível doença para o caso. Isso pode levar a um tratamento medicamentoso incorreto, piorando o estado do paciente. Exemplos desse cenário estão presentes aos montes na aclamada série “House, M.D” (conhecida no Brasil como “Dr. House”).
- Eliminação por aspectos: Nessa estratégia nós estabelecemos um critério mínimo de eliminação, por exemplo, se você possui R$3.000 para gastar em um celular, você irá descartar todos os que custam mais do que esse valor. Atribuindo um novo critério, como um mínimo de megapixels na câmera frontal, e eliminando os que menos se adequarem ao aspecto estipulado. O que pode acontecer ao usarmos essa estratégia é nem sempre utilizarmos o melhor critério de avaliação. É importante que se analise diversos critérios e cenário de maneira que não se baseie somente em aspectos que no final não compensam tanto.
- Heurística de representatividade: Consiste na nossa tendência em desconfiar de uma série de dados caso ele não reflita seu processo gerador. Se uma pessoa ganha um prêmio muito concorrido em um sorteio mais de uma vez, nós passamos a desconfiar do processo, mesmo que a probabilidade da ocorrência de um evento não sofrer interferência do resultado anterior, nada impede da pessoa ganhar repetidas vezes, embora seja pequena a chance, isso não torna o sorteio uma fraude.
- Heurística de disponibilidade: consiste em decidir com base no que você consegue se lembrar mais facilmente. Um médico brasileiro durante um surto de contaminação por Zika Vírus pode confundir uma deficiência de cobre com Síndrome de Guillain-Barré, pois ambas produzem sintomas parecidos e esta última pode ser causada pelo vírus. Logo, pelo maior número de casos da Síndrome durante aquela época, ele pode tender a esse diagnóstico.
Há um debate a respeito do papel de marcadores somáticos na tomada de decisão, o que levou os neurocientista Antoine Bechara e António Damásio a desenvolver a Teoria dos Marcadores Somáticos (Bechara & Damasio, 2005).

A teoria envolve estruturas como amígdala, ínsula, giro cingulado anterior, córtex frontal medial, entre outras, e diz que essa rede, desencadeada por um estímulo indutor primário (aquele que se encontra no ambiente e gera por si só, de maneira instintiva ou aprendida, uma reação no indivíduo) ou indutores secundários (os que são compostos por pensamentos associados a estímulos que geram tais reações e, portanto, também apresentam essa capacidade) permite que tenhamos ciência da significância emocional dos estímulos, gerando resposta somática (no corpo) que pode ser interna, como aumento do batimento cardíaco e respiração, ou externa, como enrijecimento dos músculos esqueléticos, freezing, luta ou fuga.
No sistema nervoso central ocorre a ação de neurotransmissores: moléculas sinalizadoras que servem como meio de comunicação entre neurônios e modulação de sua atividade. Ao longo da ação dos neurotransmissores ocorre uma ativa modificação de mapas somatossensoriais (redes de neurônios responsáveis por cada processo somatossensorial) e a transmissão de sinais do corpo para essas regiões. A teoria diz que tais marcadores podem interferir no processo da tomada de decisão uma vez que seus sinais operam na memória de trabalho, ajudando a aceitar ou rejeitar opções trazidas à mente no primeiro estágio da decisão.
Considerando o que já foi citado a respeito do estado psíquico do indivíduo no momento da tomada de decisão, tanto na definição das preferências e execução quanto na análise dos resultados da experiência que garante o aprendizado e permite uma adaptação, podemos relacioná-la com um fator bem comum no cotidiano da maioria das pessoas na atualidade, a ansiedade.
A ansiedade pode ser definida como uma antecipação de uma ameaça futura conhecida ou não (American Psychiatry Association, 2014). Diferentemente do estresse, não podemos detectá-la facilmente, pois não possui um biomarcador tão diretamente relacionado.

A ansiedade é separada primeiramente em dois grandes grupos: estado e traço (Gonzalez-reigosa & Io, 1971). A ansiedade estado é temporária que ocorre frente a uma ameaça ou situação estressante, como quando uma pessoa precisa fazer falar em público; é bastante comum e todos a experienciam com uma certa frequência. Já a ansiedade traço é duradoura, sendo um traço da personalidade — daí o nome — e ocorre mesmo na ausência de situações estressantes ou com respostas exageradas quando estas estão presentes, além de notar uma maior propensão aos estados ansiosos. Para mensurar a ansiedade existem diversos métodos, e o seu correto diagnóstico requer o trabalho de uma equipe multidisciplinar com psicólogo, neuropsicólogo, neurologista e psiquiatra.
Na pesquisa científica é muito comum o uso de métodos psicométricos, ou seja, testes e questionários que os indivíduos respondem e, com base nas respostas, elabora-se uma escala de ansiedade, posicionando-os em um contínuo com diversos níveis. Essa forma de mensurar a condição é conveniente para o estudo científico, pois diminui os contras de uma classificação binária (com ansiedade x sem ansiedade), sendo possível fazer correlações entre os níveis e outras variáveis de interesse.
Pesquisas indicam que, na ansiedade, estruturas como a amígdala e córtex pré-frontal possuem grande envolvimento no viés de interpretação negativa a estímulos. Um estudo envolvendo interpretação de faces neutras de maneira passiva mostrou uma possível correlação do estado ansioso traço, ativação da amígdala e uma tendência a interpretações mais negativas dos estímulos (Somerville et. al, 2004).
Nos dias atuais, o uso problemático de smartphones está correlacionado com ansiedade, má qualidade de sono e depressão (Demirci, K., Akgönül, M., & Akpinar, A.,2015), mas não se sabe qual a direção da relação: se a ansiedade causa o uso problemático de smartphones ou o contrário. Também hoje acredita-se que é possível que uma das causas da ansiedade e outros transtornos como a depressão é a derrota social (Kinsey, S. G. et al, 2007), que consiste em perder confrontos com membros da própria espécie. Em humanos, pode-se entender a derrota social em situações como bullying, exclusão social, discriminação, etc.
O que podemos fazer a respeito? Como proteger a nossa saúde mental e manter nossa cognição em bom funcionamento?
Abordaremos em textos futuros duas formas de atingir esses objetivos que hoje são objeto de estudo de grande interesse de muitos cientistas: o exercício físico e mindfulness.
Tema: NLI, Neurociência.
Subtema: O processamento individual das informações na mente influencia diretamente nas tomadas de decisão.
Objetivo: Autoconhecimento, Autodesenvolvimento, Coaching, NeuroCoaching, Coaching nas Empresas, Desenvolvimento Organizacional, Team Building.
